Conto: Sono Mortal


Sono Mortal
   
   “Deito em minha cama depois de um longo dia de trabalho, olho no relógio da cabeceira, é 00:00. O sono chega como uma pancada de carro, rápida e mortal, sinto o meu corpo na cama, meus olhos estão abertos, mas não consigo mover os braços e nem as pernas, a única coisa que se move são os olhos, dos quais desesperadamente agito de um lado para outro, com a esperança de que a força aplicada seja o suficiente pra colocar meu corpo fora do estado de transe.
   Depois de minutos de desgaste, finalmente aceitei o fato de que eu não conseguiria sair da paralisia em que me encontrara, apenas descansei, e esperei, com a esperança de que aquilo logo fosse embora. Me assustei quanto notei que pelo reflexo do vidro a minha frente, vi que o relógio digital marcava 00:02, porque parecia que haviam se passado horas.
   Logo em seguida senti uma presença, havia alguém do meu lado direito, o que me fez ficar desesperado novamente, meus olhos doíam ao tentar enxergar quem estava naquele quarto escuro comigo, me senti apavorado com a presença, pois eu morava sozinho, não tinha lógica ter alguém ali naquele quarto além de mim. Pensei então: será apenas coisa da minha mente? Ou será um ladrão? Ou até talvez um daqueles assassinos em série que entra na casa das pessoas no meio das noite para esquarteja-las por diversão? Meu coração estava quase saindo pela boca, eu estava horrorizado, a dúvida da presença estava destruindo minha sanidade aos poucos…
   Passos ecoaram, quebrando o silêncio em que se encontrava o quarto. Meus olhos se mexiam muito rápido em todos os cantos possíveis, a procura do invasor. No canto direito, aos pés da cama, a silhueta de um homem começava a surgir, eu gritei, gritei com todas as minhas forças, mas nenhum som saia, o desespero era tamanho que se saísse algum som, acordaria todos os meus vizinhos de tamanho pavor que iria ser propagado pelas cordas vocais. Entrei em desespero de ver aquele homem andando ao lado da minha cama, ele se movia vagarosamente, como se estivesse apreciando cada segundo daquela situação angustiante. Ele se posicionou a frente da minha cama, e ficou parado, eu conseguia ver apenas uma sombra. Aquele momento parecia eterno, com a figura parada em minha frente, até que então, a criatura abriu os olhos, e eles eram inteiramente vermelhos como se todo o seu olho estivesse imerso em sangue, a sua imagem havia se tornado ainda mais aterrorizante após aquela cena. Tentei fechar meus olhos, mas eles continuavam abertos, não importava a força que tentasse desesperadamente aplicar sobre eles. Então como um passe de mágica acordei, desesperado, suando, ofegante, olhei por todos os lados do quarto e nada, o homem havia desaparecido. Me toquei então que tive apenas um pesadelo, nada mais, não havia nem saído da cama, joguei meu corpo pra trás e me deitei novamente, olhando fixamente ao teto do quarto escuro, e tentando restaurar minha sanidade, dizendo inconscientemente de que aquilo era apenas um pesadelo. Pelo menos era nisso que eu queria acreditar.
   Fecho os olhos, viro minha cabeça para o lado esquerdo da cama, onde me sentia melhor, após a aparição do homem ao lado direito durante o pesadelo. Estou quase caindo no sono, mas, de repente escuto do outro lado da cama, um barulho nitidamente audível, como se fossem mãos se arrastando sobre o lençol. Naquela hora eu abri o olho, mas fiquei parado, e não me virei, meus olhos estavam arregalados, aquele som havia enregelado minha alma, havia destruído com uma pancada meu muro de sanidade do qual eu estava construindo aos poucos novamente, mas eu tinha que me virar, minha curiosidade falou mais alto que o medo. Me virei devagar, e a cada milésimo de segundo, desejei estar errado sobre minha intuição naquele momento. Quando percebi a silhueta de uma cabeça à borda da minha cama, virei rápido, com um sentido natural de reflexo. Tudo ocorreu em um segundo. Era o homem do pesadelo, seus olhos estavam arregalados, seus olhos inteiramente vermelhos fixavam-se em mim, sua face estava preta, não conseguia ver nada além de seus olhos e seus... seus horríveis dentes serrados, que se estendiam de um canto da orelha a outro, o desgraçado estava sorrindo pra mim. Seu sorriso era macabro, como o sorriso de um maníaco prestes a arrancar as vísceras de sua vítima. Ele abriu a boca, e gritou.
   Eu acordei assustado, no trabalho, no meu escritório, desorientado, com alguns colegas meus batendo na minha porta e debochando de mim.
   Eu fiquei confuso naquele momento, não entendi muito bem o que havia acontecido. Eu havia cochilado, no trabalho, e sonhado que estava dormindo em casa.?!! Tudo isso me pareceu muito confuso! E aquele grito daquela criatura, se recusava a deixar a minha mente, era um grito profundo, que parecia que havia destroçado e arrancado minha alma para fora do meu corpo.
   Então decidi escrever meu relato neste blog de casos paranormais. Não sei se tem alguém aí que possa me ajudar. Depois desse episódio eu não consegui mais dormir, aquele maldito grito... E a imagem daqueles... olhos... daquele sorriso macabro não me deixam mais em paz.
Se alguém puder me ajudar, eu ficaria agradecido.
Esse é meu e-mail: edylohan@igmail.com”
– Senhor, terminei de analisar o texto do rapaz. O que faço agora?
– Coloque na gaveta de “casos inacabados” ao seu lado. Mas.. Conseguiu encontrar algo no relato?
– Não senhor. Nada que fosse... “normal”.
– Como assim? 
 indagou o delegado.
 Bom... Dá pra perceber claramente que ele estava muito assustado com o fato que havia acontecido. Mas esse “homem” que ele relata... Eu não entendo! Tudo parecia ser fruto da imaginação dele, mas isso o perturbava tanto que começou a tirar seu sono, e sem mais nem menos seu corpo ser achado em seu próprio quarto, deitado em sua cama, sem os olhos, e com um largo corte na boca, como se fosse um enorme sorriso, parecido com alguns traços do tal “homem” que ele descreve. Eu não entendo delegado...
 A mente de uma pessoa rumo a loucura é dificilmente entendida meu jovem. 
 Disse o delegado ao novo investigador.
– Tudo bem, mas... eu acredito delegado que... muitas coisas das quais alegamos ser loucura, fruto de nossa imaginação, são na verdade a realidade, que nós seres humanos queremos acreditar que seja loucura. Porque seria pesado demais para a nossa ínfima consciência e demasiadamente insano, decretar a existência de tais coisas...
Wesley San Peixoto

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